Doutor em Demografia pela Brown University (EUA) e presidente da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), George Martine é categórico ao afirmar que os temas populacionais “têm uma contribuição fundamental a dar para a discussão de algumas das questões sociais e econômicas mais candentes do país”.
A mais recente oportunidade que os especialistas brasileiros tiveram para debater os temas relacionados à população ocorreu entre 29 de setembro e 03 de outubro de 2008, na cidade de Caxambu (MG). Na ocasião, a entidade presidida pelo Dr. Martine promoveu o XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais. O tema deste ano foi “As Desigualdades Sócio-Demográficas e os Direitos Humanos no Brasil”.
Na avaliação do especialista, o encontro deste ano foi positivo. “Este Encontro em particular serviu para fortalecer a consciência de responsabilidade social entre os nossos associados, pois foi muito valorizada a relevância política dos nossos trabalhos para a efetivação dos direitos humanos e para a formulação de propostas sociais mais adequadas”, destaca o presidente da ABEP.
Segundo o Dr. Martine, outro ponto que mereceu destaque no Encontro foi a participação científica, que, em suas palavras, “atingiu novos patamares em termos do número de participantes, assim como na quantidade e qualidade dos trabalhos apresentados”. “Nossos associados e convidados foram estimulados a discutir um tema atual, oportuno e importante, sobre o qual tínhamos tido até então pouco debate explícito”, afirma.
“Em suma, ficou comprovado que a ABEP é uma entidade dinâmica, em crescimento constante, e que tem muito coisa a dizer sobre temas da atualidade brasileira”, comemora.
George Martine ainda destaca a importância de encontros periódicos dos especialistas em temas populacionais. “Um Encontro com a natureza do nosso permite uma rápida atualização sobre quem está fazendo o quê, permite a troca de idéias, estimula novas direções de pesquisa, enfim, cria condições para o avanço científico”, argumenta.
No entanto, ele admite que, apesar da melhora nos últimos anos, “os recursos técnicos e financeiros para a difusão e troca de idéias e de trabalhos acadêmicos são ainda bastante limitados”. “Acho sinceramente que os estudos populacionais não teriam feito os avanços significativos registrados no Brasil se não fosse pelos encontros periódicos”, explica.
O hoje e o amanhã
Especialistas presentes ao XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais reconhecem avanços recentes no país, principalmente no que diz respeito à melhoria da situação financeira dos mais pobres e do acesso da população a direitos básicos. “Foram comprovados avanços importantes no acesso a renda e serviços e no exercício de alguns direitos básicos, inclusive na área de saúde reprodutiva e sexual”, afirma o Dr. Martine.
No entanto, o presidente da ABEP acompanha com receio a recente crise no sistema financeiro internacional, que, segundo ele, pode vir a minar essas conquistas observadas no Encontro. A turbulência econômica já provocou grandes perdas nos países desenvolvidos e preocupa analistas de mercado e governos.
“Para o futuro, surge de repente uma preocupação enorme com os efeitos que a aguda crise internacional poderá ter sobre as conquistas sócio-econômicas alcançadas durante os últimos anos. Ou seja, as conquistas recentes em termos da elevação da renda, da redução da desigualdade e do maior acesso aos serviços sociais podem se diluir ou se perder”, analisa.
Esclarecendo o público
George Martine também aponta como “crucial” a divulgação de temas populacionais ao público em geral. “Nesses últimos anos, a ABEP tem dedicado bastante esforço ao esclarecimento do público sobre as reais tendências demográficas no país e seu significado para a sociedade”, afirma.
Como parte dessa iniciativa de levar conhecimento a um maior número de pessoas, a ABEP lançou, durante o Encontro em Caxambu, uma série de e-books sobre questões populacionais. “O leitor entra no site, baixa o livro, salva o arquivo ou imprime quase sem nenhum custo. Isso democratiza muito o acesso e agiliza o processo editorial”, explica a professora Paula Miranda-Ribeiro, atual Secretária-Geral da ABEP. Saiba mais sobre os e-books.
O especialista também adverte que “mitos gravemente ultrapassados” relacionados aos estudos sobre população ainda embasam os argumentos de muitos brasileiros. “Ainda é comum escutar ou ler que estamos no meio de uma explosão demográfica no Brasil, que a fecundidade das mulheres brasileiras é muito elevada, que a população é predominantemente jovem, que as famílias brasileiras são numerosas, que a culpa principal da pobreza e da criminalidade é a alta fecundidade entre os pobres etc. Todos esses argumentos são ultrapassados e perigosos porque induzem a políticas equivocadas”, justifica o presidente da ABEP.
Estudo divulgado em outubro de 2008 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta o envelhecimento da população brasileira e a queda das taxas de fecundidade.Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2007, o Ipea afirma que, entre 1992 e 2007, o número de idosos saltou de 7,9% para 10,6% da população. Além disso, o levantamento também aponta que em 2007 a taxa de fecundidade total foi de 1,83 filho por mulher, que representa uma média inferior à taxa de reposição (2,1). Ou seja, a atual taxa de fecundidade no Brasil não é suficiente para manter a população total do país por um período de trinta anos. |