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Crise financeira internacional: especialista não descarta dificuldades para erradicação da extrema pobreza


Doutor em demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), José Eustáquio Diniz Alves avalia que, em virtude da atual crise no sistema financeiro internacional, alguns países poderão ter dificuldades para reduzir pela metade a extrema pobreza e a fome até 2015. Esse é um dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM) - um conjunto de metas estabelecidas em Nova Iorque, no ano de 2000, por líderes de 191 nações. 

“Uma recessão econômica é sempre acompanhada por dificuldades fiscais e os governos ficam com menores recursos para garantir programas de transferência de renda para a população pobre. Dependendo da dinâmica da crise, vários países terão dificuldades para cumprir o primeiro dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio”, afirma o especialista.

Conforme explica Alves, o aumento da pobreza e da fome que a atual turbulência no cenário internacional das finanças provocará “provavelmente será proporcional ao tamanho da crise econômica”. “A redução das atividades econômicas implica menor geração de emprego, maiores taxas de desemprego, maior exclusão social e menor quantidade de renda disponível para quem vive do trabalho”, complementa.

Além de erradicar a extrema pobreza e a fome, também fazem parte dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio: atingir o ensino básico universal; promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental; e estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento. Saiba mais sobre essas metas.

Uma das formas de minimizar os efeitos dessa crise no país, segundo o professor da ENCE, é a adoção de políticas que protejam os trabalhadores. “Se o governo adotar políticas de garantia de emprego e renda visando criar um ‘colchão’ amortecedor da crise, os efeitos podem ser minorados”, ressalta.

Alves destaca, ainda, que medidas que estimulem a educação dos jovens beneficiarão essa parcela da população diante desse momento delicado da economia mundial. “Incentivos para manter os jovens na escola podem contrabalançar os efeitos negativos sobre a juventude, especialmente das camadas pobres da população”, afirma.

Países em desenvolvimento

O professor enfatiza que, nos últimos anos, os países com menor renda per capita cresceram mais do que os chamados “países desenvolvidos”. Entre os países em desenvolvimento com maior crescimento, Alves destaca os BRICs, grupo de países formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China.

“Se esses quatro países – que representam mais de 40% da população mundial – conseguirem manter um ritmo razoável de crescimento nos próximos anos, mesmo com alguma desaceleração das atividades produtivas, as desigualdades internacionais podem ser reduzidas mesmo na crise”, explica.

Contudo, o professor destaca que alguns países menores ainda “dependem muito da demanda dos países ricos” e “serão muito afetados caso a crise se transforme em uma depressão econômica”.

Outro ponto destacado pelo especialista é o reflexo da crise financeira para os imigrantes, notadamente os imigrantes ilegais. “A tendência que normalmente acontece nestes casos é a população de origem estrangeira pagar um preço maior pelas dificuldades econômicas de cada país. Os imigrantes ilegais, por exemplo, são os primeiros a perder os empregos e sofrer os preconceitos da xenofobia”, explica.

O professor ainda explica que até mesmo os países de origem dos imigrantes sentem os efeitos da desaceleração da atividade econômica.  “O mercado imobiliário de algumas cidades brasileiras, como Governador Valadares e Goiânia, já está sentindo uma redução na procura por novas moradias por parte das famílias que aplicam os recursos das remessas de divisas dos migrantes. Portanto, os migrantes sofrerão mais os efeitos da crise, mas a repercussão poderá ser mais ampla, afetando, de maneira indireta, o conjunto das populações dos países pobres”, afirma o especialista.

O Congresso brasileiro e a crise

Até agora, a Câmara dos Deputados já aprovou duas medidas que podem ajudar o país a enfrentar a crise financeira. Uma delas permite que o Banco Central auxilie instituições bancárias de pequeno porte e exportadores. Outra cria o Fundo Soberano, uma poupança de R$ 14 bilhões para que o governo possa realizar investimentos estratégicos.

Desde setembro de 2008, que marcou o período mais agudo da crise financeira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já foram duas vezes ao Congresso Nacional. As autoridades financeiras do governo explicaram aos parlamentares o que vem sendo feito para amenizar os efeitos dessa crise no Brasil.

No último dia 30 de outubro, em visita à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Mantega fez uma explanação geral aos parlamentares sobre a crise. Nas palavras do ministro, a atual crise é “grave” e “sistêmica”, atingindo todos os mercados e países.

Contudo, o ministro também fez questão de destacar que a “fase aguda” da crise é passageira e que a economia brasileira possui aspectos positivos, como o grande potencial do mercado interno brasileiro e as reservas do país (que superam US$ 200 bilhões).

 

 

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