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“É uma questão para a gente pensar.
Apesar de eu trabalhar com isso, com
prevenção, ter informações e tudo, eu
também engravidei jovem. Eu sabia, mas
foi uma escolha minha. Quero continuar
estudando, ser estilista, e não vejo
como um problema o fato de ter tido
minha filha”.
A
afirmação é de Denise de Oliveira
Cruz, que defendeu o direito de os
jovens terem filhos, durante o painel
Direitos
reprodutivos:
um olhar sobre a maternidade,
a
paternidade
e os projetos de
vida
, realizado como parte da III Mostra
Nacional Saúde e Prevenção nas Escolas,
entre 24 e 25 de junho na Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC), em
Florianópolis.
Embora a sociedade imponha a busca da
autonomia como uma prioridade para os
jovens, ou seja, entrar no mercado de
trabalho e se estabelecer
financeiramente, antes de ter filhos,
muitos vêem na maternidade uma
alternativa de empoderamento social
ou, mesmo, uma opção de vida.
“É verdade que depois que você tem
filho não é fácil. Você pode mostrar a
realidade do mundo para os jovens e
isso pode ajudar as pessoas a
repensarem a decisão. Mas não vai
impedir quem quer ter filhos mais
cedo”, complementou Denise.
Segundo Elizeu Chaves, Representante
Auxiliar do UNFPA, Fundo de População
das Nações Unidas, a maternidade tem
sido um instrumento poderoso de
reconhecimento social, uma ferramenta
de afirmação e poder. “Além de já ter
sido utilizada para demarcar o limite
entre a juventude e os anos adultos, a
possibilidade da maternidade é vista
de maneiras diferentes por homens e
mulheres”, explicou.
Para ele, é preciso repensar e
enfatizar a questão de outras
masculinidades possíveis, já que o
desenho do comportamento masculino
imposto pela sociedade afeta as
relações, o acesso a serviços, a
segurança e a saúde do próprio homem e
de suas redes sociais. “A violência é
outro componente do problema,
especialmente quando se trata do
recurso à violência como forma de
afirmação social”, lembrou Chaves.
Ricardo, enfermeiro, foi pai aos 20
anos. Para ele, não foi uma escolha,
pois a gravidez não foi planejada. “As
mudanças na minha vida depois disso
foram principalmente em termos de
adiamento de projetos. Sou muito
participativo na criação do meu filho
e acabei sendo ‘pãe’, uma mistura de
pai com mãe Tive que amadurecer, adiei
meu mestrado e tive que me tornar
independente, apesar de termos tido
apoio da família, inclusive
financeiro”.
“A rede de apoio é muito importante,
mas tive que me sacrificar de várias
formas, principalmente nos estudos.
Faltava provas, mas continuei firme,
porque depois da faculdade havia a
perspectiva de uma melhoria de vida”,
explicou.
Para ele, para garantir que a
paternidade ou a maternidade sejam
escolhas conscientes, é preciso
trabalhar a questão do corpo e da
sexualidade do menino e da menina, dos
métodos contraceptivos disponíveis, a
decisão de engravidar. “Ver os
projetos de vida tanto do menino
quanto da menina. Se ele não conhece
os métodos, fica até difícil negociar
a utilização”, concluiu.
Ricardo e Denise acreditam que é
preciso haver “um melhor atendimento
para os jovens. Não ver a menina como
usuária dos serviços de prevenção
apenas quando é mãe. Não afastar essas
pessoas dos serviços”.
Para Sandra Unbehaum, da Fundação
Carlos Chagas, as abordagens têm que
ser adequadas à faixa etária. “Não
podemos tratar jovens de 10 anos como
tratamos jovens de 24, é claro.
Existem diferenciais na abordagem em
saúde segundo a faixa etária. Há
‘diversas’ adolescências, assim como
há ‘diversas’ gestações na
adolescência. Mas tratar do tema dos
10 aos 14 anos é, certamente, mais
desafiador”.
“Se a gente observa como o
comportamento de homens e mulheres tem
sido diferente, isso nos obriga a
repensar os serviços. Cerca de 75% dos
contraceptivos são de utilização
prioritária feminina. Os homens ainda
têm que descobrir seu papel e
participar do planejamento
reprodutivo”, argumentou.
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