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ARTIGO - AS MAIORES VITÓRIAS


         Os homens têm sido vinculados ao longo da história a uma imagem de prazer pela competição irrestrita. Infelizmente, essa imagem corresponde à realidade concreta em várias situações. Obviamente as variadas formas de competição servem a um amplo espectro de finalidades. Existem casos em que, grosso modo, a competição serve apenas como instrumento de poder e perpetuação de domínio ou simples mecanismo de demonstração de superioridade.

Historicamente, o exercício da competição também guarda vários exemplos positivos. Seja em ritos de passagem ou em práticas tribais, a vitória individual em caça ou a superação de desafios impostos pelo meio ambiente é vista como símbolo de reconhecimento social, amadurecimento e entrada na vida adulta. Nas disputas medievais por terras e ampliação de territórios e reconhecimento do valor de senhores ou mesmo em ritos de iniciação em sociedades indígenas em que jovens são obrigados a caçar para serem reconhecidos como adultos plenos ou, ainda, como guerreiros, a competição é um instrumento de afirmação e legitimidade perante pares.

Diferentemente dos ritos utilizados em várias civilizações para atender a processos sociais, principalmente na busca por pertencimento social, normalmente em associação ao período de transição para a fase adulta, a prática desportiva assume outros papéis que não devem ser confundidos, mas é inegável o simbolismo que praticantes de esporte carregam. Nas sociedades ocidentais, como já apontava Joseph Campbell, há uma verdadeira escassez de mitos que inspirem e que permitam a renovação de valores e costumes sociais. Há espaço, portanto, para que os atletas em geral exerçam, mesmo que inadvertidamente e muitas vezes de forma insipiente, o papel de símbolo para jovens enquanto verdadeiros “heróis” modernos. Neste particular, vale uma digressão, em algumas sociedades o ato de bravura masculino é equiparado à maternidade. Na cultura asteca, por exemplo, os cultos previam a existência de vários céus para onde as pessoas poderiam ir de acordo com a morte que tivessem, sendo que o céu dos guerreiros mortos em batalha era o mesmo das mães que morriam em trabalho de parto.

Há muitos espaços para o homem demonstrar que a masculinidade não é restrita a um determinado modelo e que é possível exercer a condição de homem em franca parceria com as mulheres e livre de formas violentas de afirmação da identidade. Vale citar, neste contexto, a final recente em Wimbledon. De um lado Roger Federer, o maior do mundo no tênis, e do outro o chamado “rei do saibro”, Rafael Nadal. Após uma batalha solitária de cerca de cinco horas que se prolongou em função da chuva, o suíço derrotado e que perde uma invencibilidade de seis anos no maior torneio do mundo do tênis ainda é capaz, no calor do desfecho da longa disputa, prestar homenagens ao vencedor e ressaltar a dificuldade em vencê-lo, mesmo tendo do outro lado o único competidor cujo retrospecto é negativo. 

Seria ótimo se fatos como esse do esporte fossem vistos como referência, principalmente para a noção de masculinidade que em várias sociedades está, inclusive, atrelada ao uso da violência e da não assimilação da experiência de derrota. O exemplo, não apenas de bons vencedores, mas, acima de tudo, de bons perdedores que demonstram, no ato de perder, a condição de vencedor à prova do tempo, é crucial para o debate sobre masculinidade. 

Estendendo o debate sobre masculinidade para além de uma cultura de não-violência, é fundamental que homens assumam papéis para a construção de uma parceria com mulheres, que se observe em diferentes campos: dividindo efetivamente papéis no planejamento familiar e na criação de filhos, no combate a toda e qualquer forma de violência de gênero, no enfrentamento à mortalidade materna e na prevenção ao HIV e às DSTs.

Há muito que pode ser feito pela construção de uma sociedade igualitária, muito pode ser feito por governos e por vários grupos organizados como MenEngage, que une instiuições de diferentes países com experiência em engajamento de homens na promoção de equidade de gênero. Como tem chamado à atenção o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, é tempo de uma mudança de comportamento que envolva homens em todo o mundo. Os exemplos positivos em várias áreas, como no esporte e nos jogos olímpicos que se aproximam, podem ser um grande começo.

Elizeu de Oliveira Chaves Júnior é Sociólogo e Representante Auxiliar do UNFPA no Brasil

 

 

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