Objetivo 3: Promover igualdade de gênero e autonomia das mulheres
ODESSA, UCRÂNIA
Anna voltou do inferno: nota-se nos seus olhos que ela esteve lá e não faz muito tempo. Nas noites intermináveis em que seu corpo era abusado por homens, tudo nela doía, ao passo que sua alma se retraía: já não agüentava mais.
Faz apenas alguns meses que ela conseguiu escapar da escravidão sexual. Entretanto, Anna começa a ter esperança: há uma promessa de felicidade. Anna olha fixamente para o telefone, como se o ouvido apenas não fosse suficiente para captar o chamado que ela aguarda.
*****
Duas calamidades marcaram sua vida. Uma afetou a sociedade inteira: o colapso da União Soviética. Como aconteceu com quase todas as famílias da cidade de Kamenets-Podolsky, seus pais ficaram desempregados quando a fábrica de eletrodomésticos foi obrigada a fechar.
Outro golpe foi a morte de seu pai. Engenheiro, foi obrigado pela crise econômica a trabalhar como pedreiro e na construção civil, mas seu coração não resistiu.
Com a combinação do fim do estado de bem-estar social e a perda do apoio da família, Anna caiu vertiginosamente na pobreza. Não havia mais futuro e nenhum remédio poderia mudar isso.
Foi então que um conhecido lhe ofereceu um emprego de camareira de hotel num país distante. Pareceu-lhe uma saída daquela situação funesta em que se encontrava.
Mais de quatro milhões de mulheres e adolescentes no mundo são forçadas a cair na prostituição. Anna não sabia que esse crime existia, nem que ela se enquadrava no perfil de vítima: criada numa cidade pequena, jovem e desempregada.
O conhecido pagou sua passagem para o exterior e ela foi levada em caminhonetes, numa viagem frenética pelo deserto. O hotel em que ela supostamente trabalharia de camareira, era um apartamento em que ela ficava encarcerada. Um guarda a levava até um hotel, onde um cliente a esperava, e a levava de volta. Durante o dia, ela era abusada por dois ou três homens e, durante a noite, por cinco ou seis.
“Eu me sentia como se não fosse ninguém, como se fosse nada”, diz ela.
Algumas mulheres na situação de Anna passam anos no cativeiro até serem descartadas. Ela teve mais sorte. Depois de vários meses, em um estado de completa exaustão, Anna foi levada a um cliente que a deixou dormir. Ela dormiu durante dias. Depois, ele a levou para o litoral. Então, ela não poderia mais voltar.
Durante algum tempo, trabalhou como garçonete num restaurante, onde se apaixonou por Reda, um jovem do lugar. Mas a polícia a encontrou e ela foi deportada.
“Quando vi que o aeroporto foi ficando pequeno até desaparecer, pensei comigo mesma: Acabou-se.”
Era inverno quando o avião aterrissou na Ucrânia. Vestia roupa e calçava sapatos de verão e não tinha bagagem. Parecia uma prisioneira aguardando ordens.
Duas assistentes sociais a levaram para um abrigo para mulheres que também tinham sido vítimas da prostituição. Ali, Anna recebeu treinamento profissional e apoio moral para ajudá-la a reconstruir sua vida.
*****
Anna encara o telefone. Espera uma chamada de Reda, confirmando seu vôo para Odessa. Incapaz de suportar a separação pela longa distância, ele pouco a pouco juntou dinheiro para a passagem. Dessa vez, só vem visitá-la. Mais tarde, entretanto, quando tiver mais dinheiro, diz que irá se casar com ela.
Reda quer levá-la de volta para casa, diz Anna, para o mar e para a felicidade que ela conheceu por pouco tempo.