UNFPA

 

 

 

 Objetivo 8: Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento

São Paulo, Brasil

A história de Uridéia é uma história de busca. Busca pelo amor do pai e da mãe. Busca de uma identidade, reconhecimento e sobrevivência e, como meio para conseguir tudo isso, busca de um ofício e de um trabalho.

Uridéia tem 19 anos. Foi criada pela avó em Natal, no Nordeste, longe de seu pai e de sua mãe.

Quando Uridéia tinha dois anos, sua mãe foi embora para São Paulo para trabalhar como empregada doméstica, a quem viu muito pouco.  No entanto, todos os dias, a distância, ela via o homem que diziam ser seu pai. Esse era dono de um restaurante que ficava bem em frente à escola de Uridéia. Com freqüência, ela o via abraçando o filho.

Quando completou quinze anos, Uridéia criou coragem para entrar no restaurante.  Até hoje, ela se lembra da conversa:

“Eu gostaria de falar com o senhor. Seria possível?”

“Você veio pedir dinheiro?”

“Vim para pedir para que o senhor me reconheça como sua filha.”

Ele se levantou e esbravejou para que todos ouvissem:

“Você não é minha filha.  Eu só tenho um filho.”

Uridéia saiu do restaurante, em prantos.

“Não tenho mãe nem pai.”

A três mil quilômetros do restaurante do pai, Uridéia tem vivido os últimos três anos na casa da mãe numa favela de São Paulo; três anos difíceis.  Ela veio em busca de “amor materno”, mas, em lugar disso, descobriu que ela e Elsa se haviam convertido em estranhas depois de onze anos sem se encontrarem.

“A senhora nunca me deu amor de mãe.”

“Amor não enche barriga”, responde a mãe, com raiva crescente. 

Às vezes, a raiva leva à violência.

Apesar de ter concluído o ensino médio, o único trabalho que ela conseguiu achar foi como babá na favela. O que ganhava era muito pouco para poder ajudar a mãe. E Uridéia passou a fazer parte dos incontáveis milhões de jovens desempregados no Brasil.

Como sabia que era inteligente, prestou vestibular para fazer o curso de administração de empresas numa cara universidade particular.  Colocou-se em terceiro lugar. Sem maiores explicações, foi informada de que não havia sido admitida. O motivo, pensou ela, teria sido o fato de ter colocado na ficha de inscrição o seu endereço na favela Jaguaré.

Um dia, viu uns cartazes na favela, anunciando um curso de culinária.

Ela fez o curso Cozinheiro Cidadão, de três meses, oferecido por uma OnG localizada na própria favela.  Ali, aprendeu as noções básicas de culinária profissional e, acima de tudo, aprendeu a trabalhar em equipe com seus colegas, todos moradores da mesma favela.

A culinária serve de metáfora para uma vida profissional ideal. Ela propicia uma liderança bem definida, uma hierarquia clara e funções específicas. Os participantes recebem uma remuneração adequada (são bolsistas) e as suas habilidades são reconhecidas.

Hoje, Uridéia sabe planejar uma refeição, ir à feira bem cedinho e selecionar os produtos mais frescos. Sabe limpá-los, picá-los com agilidade, combinar sabores e aromas e preparar e servir uma refeição com estilo.

Para Uridéia, o trabalho é tudo. É o meio de escapar da pobreza e moldar seu destino. E é sua identidade: 

“Pensava que ia apenas aprender a fazer feijoada, mas o que achei foi uma saída.”

Seu sonho é ter seu próprio restaurante, onde poderá dar emprego a outras pessoas na favela.  Outro sonho: está firmemente decidida a tornar-se exímia numa atividade que seu pai será capaz de apreciar.  De modo que, um dia, poderá entrar no restaurante apinhado do pai e fazê-lo ciente de tudo que ela conseguiu realizar.

E lhe perguntaria novamente:

“Eu gostaria de falar com o senhor. Seria possível?”