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Intervenções artísticas marcam encerramento do Promovendo Direitos de Jovens nas CASES

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Projeto realizado pela SECULT, em parceria com o UNFPA, contou com a participação de 66 jovens Em cumprimento de medidas socioeducativas e 50 profissionais que atuam e/ou tem interesse em trabalhar com este seguimento

Por meio de intervenções artísticas como música, grafite, teatro e leitura dramática, profissionais que participaram da formação “Promovendo Direitos de Jovens: Cultura e Saúde Sexual e Reprodutiva em Salvador” nas Comunidades de Atendimento Socioeducativos (CASES) Salvador e CIA, assim como jovens em situação de privação de liberdade, interagiram e compartilharam as experiências e aprendizados que obtiveram nas oficinas, durante o evento de encerramento do projeto. O evento ocorreu no auditório do Anexo 2 da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Lazer (SECULT), no Parque Solar Boa Vista, no bairro Engenho Velho de Brotas, na capital baiana.

A formação realizada pela SECULT em parceria com o UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas, foi realizada entre os meses setembro e dezembro nas Escolas Municipais Professor Carlos Formigli e Yves de Roussan, unidades escolares que ficam dentro das CASES Salvador e CIA, respectivamente. Em quatro meses foram realizadas dez oficinas com profissionais, uma Roda de Conversas sobre Direitos da População Jovem e quatro oficinas com jovens.

Além de 66 jovens das CASES, participaram cerca de 50 profissionais, entre professores/as, gestores/as, socioeducadores/as, educadores/as de medidas socioeducativas, agentes de portaria, auxiliares de serviços gerais, técnicos/as em enfermagem, nutricionistas, psicólogos/as, instrutores/as de artes, pedagogos e assistentes sociais, além de educadores que compõem o quadro da Fundação de Apoio à Criança e ao Adolescente (Fundac).

Durante o evento de encerramento, no turno da manhã, profissionais pertencentes a Escola Municipal Carlos Formigli, da Case Salvador e de outras instituições municipais e estaduais, ousaram e abusaram dos aspectos culturais para mostrar o que debateram nas oficinas com as facilitadoras Deise Queiroz e Carla Cristina (Relações de Gênero e Enfrentamento ao Racismo), Cláudia Vasconcelos e Julia Regina (Direitos Sexuais e Reprodutivos e Prevenção de DSTs e HIV/AIDS), Elen Catarina e Simone Gonçalves (Teatro e Dança) e Isabele Dublat (Álcool e outras drogas).

Ao som da canção “Ilha de Maré”, os/as profissionais realizaram uma verdadeira “Lavagem Baiana”, com direito a roda de samba e roupa a caráter. Na sequência, a professora municipal Carol Costa, apresentou um slide com os trabalhos desenvolvidos nas oficinas. A educadora enfatizou que o seu trabalho e dos demais educadores não se resume apenas nas funções contratuais, mas faz parte de um ‘pacote’. "Somos mais que educadores, somos psicólogos, mães e amigos desses adolescentes".

Os/as participantes ainda utilizaram o conhecimento adquirido nas oficinas de Relações de Gênero e Enfrentamento à Violência contra a Mulher e Teatro e Dança para contar, por meio de um Cordel, a história de “Maria Flor do Sertão” - a personagem se apaixona pelo homem mais temido da região, mas que no final do repente, vira um bom rapaz por causa do amor. Durante a tarde, as intervenções artísticas continuaram, mas a partir da perspectiva dos jovens da Case CIA que chegaram para completar a festa e compartilhar com todos e todas de que forma as oficinas de Teatro, Dança e Grafite, foram importantes para suas formações.

Diferente das oficinas temáticas realizadas com os/as profissionais, os jovens e as jovens das CASES participaram de atividades práticas de Teatro, Dança e Grafite, esta última com os facilitadores Marcos Costa e Deilton José, podendo assim, evidenciar como suas habilidades nas artes foram desenvolvidas. “Quero agradecer a oportunidade que vocês nos deram de aprender grafite, teatro e dança e dizer que nós gostamos muito e que, sem oportunidades, não temos como mudar de vida”, ressaltou um dos jovens da Case CIA que, em agradecimento, cantou uma canção de Rap da Banda Racionais MC’S e ainda mostrou a sua baianidade ao dançar e cantar um arrocha.

A Oficial de Programa em Saúde Reprodutiva e Direitos do Fundo de População das Nações Unidas - UNFPA, Fernanda Lopes, agradeceu a disponibilidade dos jovens presentes e das e dos profissionais. Segundo Lopes, se as CASES são comunidades de atenção e educação, todos e todas que estão nestes locais atuam como educadores e educadoras, independente dos cargos. “Gostaria de destacar que, para nós do UNFPA, para nós das Nações Unidas no Brasil, espaços de oportunidades como esse são importantes. São esses espaços e oportunidades de encontro, de diálogo, de construções coletivas, isso faz toda a diferença. Para nós é muito importante contribuir para esse movimento de transformação para garantir que todas as pessoas contem”.

Fernanda Lopes também agradeceu a SECULT e a FUNDAC por terem se disponibilizado a atuar em parceria e destacou que foi esta parceria que possibilitou que os resultados positivos fossem alcançados. Ao se dirigir aos representantes da SECULT e FUNDAC ela agradeceu por acreditarem que era possível fazer em parceria, dividindo trabalho, dividindo passo a passo. Ao se dirigir aos jovens destacou que “as e os facilitadores são pessoas jovens como vocês. Todas as pessoas podem construir oportunidades diferentes, por isso é tão importante ter formadores e formadoras jovens. E a importância deste perfil é também algo que deve ser motivo de reflexão para as educadores e educadoras, porque muitas vezes acredita-se que o jovem seja o futuro, mas é essencial reconhecer que as e os jovens são e fazem o presente”.

Edna Rodrigues, subcoordenadora da Coordenadoria de Ensino e Apoio Pedagógico (CENAP/SECULT), informou que quando surgiu a oportunidade da parceria com o UNFPA, a SECULT sugeriu que as vagas também fossem abertas para pessoas de outras escolas, para sensibilizá-las. “Quem está de fora tem uma visão distorcida do que acontece nas escolas municipais que ficam dentro das CASES e a gente enquanto Secretaria tem dificuldade em encontrar profissionais que queiram trabalhar nesses locais”. A subcoordenadora ressaltou ainda que é preciso que as professoras e professores entendam e tenham a compreensão de que aqueles e aquelas jovens que estão em situação de privação de liberdade, devem ter sido seus alunos e alunas e se não foram, poderiam vir a ser.

Cândida Moraes, Coordenadora Pedagógica de Educação de Jovens e Adultos (EJA/SECULT), que esteve a frente de todo o processo de organização e execução das oficinas, destacou que a realização do projeto possibilitará um diálogo ainda melhor entre profissionais e jovens, e agradeceu em nome da Secretaria, a ajuda de todos e todas para realização do projeto. “Quero agradecer ao UNFPA pela experiência, enquanto jovem, enquanto mulher negra e de comunidade e também enquanto funcionária da SECULT. Para mim não foi e não é só um trabalho. Agradeço muito por termos estado juntos nessa atividade. Agradeço ainda a FUNDAC que nos deu todo o apoio”, ressaltou.

A Coordenadora ainda fez uma observação em especial, aos facilitadores que trabalharam com os/as jovens. “Realmente foi muito marcante para estes e estas jovens. Foi muito mobilizador. Sei bem, que é triste para nós que trabalhamos, sair e deixá-los e deixá-las lá, mas faz parte do nosso trabalho e acreditamos que terão caminhos melhores e contribuímos para isso”.

Para a diretora da escola municipal Yves de Roussan, Lucimar Melo, que também relembrou o primeiro momento de encontro na "Roda de Conversas: Políticas de Juventude e Direito da População Jovem", realizado em agosto, a integração e conquista dos facilitadores para com os jovens e as jovens foi fundamental para que a ação fosse exitosa. “Isso é muito significativo. Estes jovens são muito sinceros. Quem está no dia a dia sabe que se a atividade não for boa, se não cativarem nos primeiros cinco minutos já era. A pessoa dança. Mas com esse grupo de facilitadoras e facilitadores foi diferente, o sorriso dos jovens disse tudo”.

O projeto “Promovendo Direitos de Jovens: Cultura e Saúde Sexual e Reprodutiva em Salvador” integrou o plano de trabalho 2011 estabelecido no âmbito da cooperação técnica entre UNFPA e a PMS, que conta com a participação das Secretarias Municipais da Educação, Cultura, Esporte e Lazer (SECULT), de Saúde (SMS) e de Reparação (SEMUR), assim como a Assessoria de Relações Internacionais (ARI) e a Superintendência de Políticas para Mulheres (SPM).

Troca de Experiências

Assim como jovens e profissionais envolvidos, os facilitadores e as facilitadoras também passaram por uma nova experiência e relataram de que forma puderam subsidiar estes educadores e educadoras na implementação e formação de ações educativas nas CASES. “Nos momentos de oficina nós fomos muito mais que formadoras, fomos mobilizadoras, animadoras dessa rede que todos e todas constroem e sabem tecer muito bem. Acredito que, quando a gente começou a discutir, na oficina de relações de gênero, a questão dos papéis e das funções que cada um exercia na instituição, foi algo muito significativo. Pois fizemos várias análises em torno das histórias profissionais, histórias de vida e o quanto cada um, cada uma é comprometido na sua função”, destacou Carla Cristina, pedagoga e facilitadora do Projeto.

Para a jovem socióloga, Deise Queiroz, a experiência em participar do processo de facilitação com profissionais que trabalham diariamente com jovens em privação de liberdade foi inovadora. “Falando do ponto de vista de quem esteve conduzindo as oficinas para que os diálogos acontecessem, percebi o quanto esse projeto nos proporcionou mais maturidade. Existe muito estereotipo, um preconceito com essas pessoas que na verdade fazem um trabalho fortíssimo no cotidiano de construção da identidade delas próprias e destes jovens”.

Segundo a assistente social, Júlia Regina, discutir saúde sexual e direitos reprodutivos para um público que trabalha com jovens cerciados destes direitos foi algo muito desafiador, pois, ao mesmo tempo em que ela passava as informações, os/as profissionais tinham preocupação em pensar coletivamente as melhores práticas para trabalhar com estes garotos e garotas. A facilitadora destacou ainda que é preciso uma maior participação por parte dos que lidam diretamente com os/as jovens. “Os educadores de medidas que estão na rotina, o e a agente de portaria, o e a agente de segurança, são as pessoas que têm de ter mais investimento. São eles e elas que sabem das delicadezas, dos detalhes, da melhor linguagem. A gestão tem de ser sensibilizada para assegurar os direitos destes jovens e motivar a participação destes profissionais”.

Em 2010, o mesmo projeto foi realizado na Comunidade de Sussuarana, em Salvador, que está na lista de localidades com maior índice de violência da cidade. Cláudia Vasconcelos, jovem educadora popular e consultora responsável por coordenar o Projeto em 2010, ressaltou a diferença. “Participei do Projeto no ano passado, mas ter tido a chance de trabalhar em uma atividade voltada para jovens em cumprimento de medidas socioeducativas foi uma experiência nova e muito significativa. A gente que trabalha no campo do teórico às vezes se afasta um pouco e ficar junto, em encontros que possibilitam essa troca, foram momentos singulares. Algumas informações já começaram a ser socializadas com os jovens e isso é a melhor avaliação que podemos ouvir”.

Formação de jovens para jovens

Enquanto a parte profissional participou de oficinas temáticas, os jovens e as jovens puderam mesclar momentos recreativos, com arte e aprendizado. Na oficina de grafite, considerada a de maior repercussão nas CASES, os facilitadores apresentaram a diferença entre grafite e pichação e se surpreenderam ao ver que muitos já conheciam as suas obras espalhadas pela capital baiana. “Foi um processo muito gratificante. Já trabalhei em diversas comunidades periféricas, mas nunca tive a oportunidade de trabalhar com jovens em situação de privação de liberdade. A gente ficou muito feliz desde quando mostramos os slides e eles reconheceram a nossa arte, ou seja, já tinham contato com nossa arte sem ter contato conosco. Sair de lá e ouvir os gritos de ‘foi a melhor atividade que já tivemos’ foi muito bom mesmo”, destacou Marcos Costa, artista plástico.

Deilton José também enfatizou que, pelo fato deles serem de comunidades, bairros periféricos da cidade, fez com que os/as jovens enxergassem neles um “espelho de oportunidades”. “Nós fomos um reflexo de uma nova construção. Porém, ao mesmo tempo em que ficamos muito felizes em passar coisas boas para eles e elas, também sentimos uma sensação triste, em saber que se estes e estas jovens tivessem encontrado pessoas como nós antes, talvez os destinos deles e delas tivessem sido diferentes. A educação é a base tudo e estão desimando a nossa juventude”.

Nos depoimentos dos jovens presentes no encerramento, as declarações de esperança por um futuro melhor... A.S, 18 anos, está na Case CIA e é estudante da Yves de Roussan, sonha em ser cabelereiro e quer montar um salão. “Eu gosto de cuidar de cabelo, beleza. Quero fazer um curso profissionalizante quando sair daqui e trabalhar com estética”, pontuou. Mas, após a realização das oficinas, o jovem também não descartou a possibilidade de trabalhar no campo das artes. “Eu gostei muito das oficinas. Talvez trabalhe com dança, grafite. As meninas foram muito legais e os meninos também. Só tenho a agradecer ao trabalho de vocês”. Para outro jovem, as oficinas possibilitam novos horizontes. “Gostei muito. Faz a gente pensar que tem coisa boa que dá pra gente fazer”.

A importância de se trabalhar para a desconstrução de preconceitos foi um dos pontos de maior destaque na oficina de Teatro e Dança, segundo Simone Gonçalves. “Dançamos Hip Hop, abordamos no teatro temas que nos bloqueiam por contra de pré-julgamentos. Isso fez com que todos e todas que participaram se permitissem a conhecer outros universos”. Elen Catarina ressaltou também a necessidade de deixar “acontecer o momento” por parte das e dos profissionais e dos/das jovens. “O que a gente ouve, o que a gente vê...É essa coisa do Teatro ser essa arte do encontro. E a gente se encontrou. A gente encontrou vocês que aceitaram o desafio. E para nós também foi muito desafiador fazer teatro e dança nesse contexto de cumprimento de medidas socioeducativas”.

O envolvimento e participação de profissionais e jovens na mesma ação, também gerou impacto nas relações dos alojamentos, segundo Mônica, educadora de medida socioeducativa da CASE Salvador. “Para nós foi grandiosa essa atividade. Estávamos vendo um meio de acabar com as rixas e não sabíamos como. Antes de começarem as oficinas fomos nos alojamentos e falamos que íamos colocar alguns meninos juntos, mas que eles deviam se comportar. Perguntamos se ia ter briga. Todo mundo disse que não. E realmente, houve a união de todos alojamentos e não aconteceu nenhum problema. Depois ainda multiplicaram os aprendizados para os colegas. Os outros ficaram dizendo que vão querer participar se tiver de novo. Foi muito produtivo e eu gostaria de agradecer a oportunidade de nós participarmos e deles também estarem inseridos”.

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