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Professora Gina Vieira debate igualdade de gênero nas escolas a partir de obras escritas por mulheres

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No Dia da Mulher Afro-Lanino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho, a precursora do projeto Mulheres Inspiradoras, é homenageada pelo UNFPA na ação digital “Destaque Laranja”

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“Eu aprendi com os meus pais que os estudos transformariam a minha vida. Eles diziam que a educação me daria super poderes. Eu acreditei e hoje estou aqui”.

A frase que norteou toda a história da professora Gina Vieira, hoje muda a vida de centenas de adolescentes e jovens da rede pública de ensino do Distrito Federal. Mulher negra, nascida na região administrativa de Ceilândia, na periferia de Brasília, a professora é criadora do projeto pedagógico Mulheres Inspiradoras e trabalha pela igualdade de gênero dando visibilidade para grandes mulheres que muitas vezes ficam esquecidas.

No Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho, Gina Vieira é escolhida pelo Fundo de​​ População da ONU (UNFPA) como homenageada da ação digital ‘Destaque-Laranja’, da ONU Brasil. A iniciativa acontece como parte da campanha “UNA-SE pelo fim da violência contra as mulheres” e visa o reconhecimento a pessoas, cidades, escolas, universidades, empresas e outras instituições com atuação relevante para a prevenção e eliminação da violência contra as mulheres e meninas no país.

Filha de doméstica e pedreiro, a professora teve dos pais semialfabetizados um grande investimento em educação. Mas, por ser mulher, o tratamento acabava diferenciado dos irmãos. “A minha família não tinha condições financeiras de manter todos os filhos na escola, então eles escolhiam os meus irmãos para ir a mais aulas. Eles diziam que eu não tinha futuro, mas meus irmãos, por serem homens, poderiam ir mais longe”.

Incentivo na escola

Contrariando todas as expectativas, Gina imprimia mais esforço na escola para suprir a educação falha e a falta de credibilidade que a estrutura social impõe às crianças negras. O racismo socialmente naturalizado se estendeu durante todo o processo de construção da carreira da professora. Até hoje, mesmo tendo seu trabalho reconhecido e premiado nacionalmente, essa condição impacta consideravelmente sua vida.

“Na escola, eu percebi o que já havia fora dela: o racismo. Mas, na infância, eu tive uma professora chamada Creuza Lima. Diferente de todas as pessoas que faziam chacota comigo, riam de mim, do meu cabelo, da minha dificuldade em aprender, ela me colocou no colo, me deu carinho e se dedicou para que eu aprendesse. Isso mexeu muito comigo na época e me inspirou a ser professora como ela”.

Anos mais tarde, a jovem Gina cursou o magistério, fez o concurso público para a Secretaria de Educação do Distrito Federal e passou a exercer a profissão dos sonhos. Primeiramente, lecionando para os anos iniciais e, após a conclusão da faculdade de Letras, para os adolescentes. “Foi um choque de realidade para mim, pois eu comecei a dar aulas para estudantes que não estavam interessados em aprender. Eles faziam muita bagunça, se comportavam muito mal. Eu ficava pensando o porquê isso acontecia, já que a educação tinha mudado a minha realidade”.

Mulheres Inspiradoras

Devido a esse contexto, a professora passou por um período de adoecimento psicológico e, em sua recuperação, decidiu imergir na realidade da juventude fazendo quatro pós-graduações em áreas conexas à adolescência. Durante os estudos, percebeu que os e as jovens estudantes não interagiam bem com a escola por falta de motivação. “A escola, com seu sistema arcaico, não abraçava esse estudante. Então, o estudante também não se sentia pertencente àquele ambiente”.

Foi então que a professora decidiu inovar na metodologia de ensino. A fim de superar as dores que sua trajetória de mulher negra e periférica trazia e que via estampada também em seus alunos, a educadora apaixonada por literatura trouxe, para dentro da sala de aula, obras que foram escritas por mulheres. “Eu escolhi seus obras, duas delas escritas por mulheres que tinham mais ou menos a idade das e dos estudantes: Malala Yousafzai e Anne Frank. Mas também selecionei nomes como Carolina Maria de Jesus e Cristiane Sobral, aqui de Brasília”.

A partir daí nascia, em 2013, o projeto Mulheres Inspiradoras, com o intuito de ampliar o conhecimento e contribuir para o debate em torno da necessidade de desconstrução do machismo. Dando visibilidade para grandes mulheres que muitas vezes ficam esquecidas, Gina traz especial cuidado no destaque de grandes mulheres negras na iniciativa. É interessante saber que, antes deste projeto, a professora não havia tido contato com as questões referentes à igualdade de gênero e nem com a literatura negra.

“Estudando e pesquisando para ministrar as aulas e os debates foi que eu pude também me empoderar desta pauta. Com as obras de Cristiane Sobral eu me reconheci negra e me senti motivada a assumir minha negritude”. Ela conta que mantinha o alisamento dos cabelos há pelo menos 20 anos e, a partir do projeto, decidiu assumir a identidade negra, passar pela transição capilar para manter o cabelo crespo.

Histórias de vida

Após a leitura das obras das personalidades femininas, os estudantes tinham um encontro com algumas mulheres com variadas profissões e trajetórias de vida bem diferentes. Foram médicas, professoras, atrizes; e, uma delas foi a professora Creuza, exemplo na infância da precursora. Depois desta etapa, os jovens levaram, para a sala de aula, histórias das mulheres inspiradoras na vida de cada um. O auge do projeto foi a publicação de um livro com mais de 100 histórias que envolviam mães, tias, avós e amigas próximas dos e das estudantes.

O projeto Mulheres Inspiradoras deu tão certo que conquistou diversos prêmios. O primeiro deles, em 2014, foi o 4º Prêmio Nacional de Educação e Direitos Humanos, apoiado pelo Ministério da Educação. Em seguida veio a conquista do 8º Prêmio Professores do Brasil e do 10º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. O projeto também foi o vencedor do 1º Prêmio Ibero-Americano. Hoje, com a parceria internacional do CAF - Banco de Desenvolvimento da Américas Latina, a iniciativa foi implementada em mais de 30 escolas, atingindo cerca de 3 mil jovens. Em média, 80 professores e professoras estão sendo treinados como multiplicadores da ação; e mais de 1500 obras escritas por mulheres já foram distribuídas para instituições de ensino.

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