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02 de setembro de 2008

Problemas no "paraíso": saúde reprodutiva nas ilhas do Pacífico

O UNFPA recentemente expandiu seu potencial para disponibilizar cuidados de saúde de emergência efetivos a mulheres e famílias em ilhas isoladas do Pacífico. Em colaboração com o PNUD e o UNICEF, o Fundo estabeleceu a iniciativa “Presença Conjunta de País” para aumentar sua capacidade de resposta por meio de parcerias. A iniciativa coincide com o fato de o Fundo também estar fortalecendo sua presença em campo em todo o mundo, visando aperfeiçoar a prestação de serviços e a colaboração com os países.

pSASAMUGA, Ilhas Salomão — Judith estava nas primeiras etapas do trabalho de parto quando chegou ao hospital local apenas alguns dias depois que o tsunami de abril de 2007 atingiu sua ilha. Mas o edifício tinha sido inundado, os canos de água partidos pela metade, a sala de parto contaminada com areia e detritos, e a maioria dos suprimentos e equipamentos médicos destruída ou levada para o fundo do oceano Pacífico.

As duas enfermeiras remanescentes – a maioria fugiu no começo da crise – queriam mandar Judith para outro hospital numa ilha próxima, mas a viagem de duas horas e meia de canoa parecia muito arriscada sob aquelas circunstâncias e não havia qualquer outro tipo de transporte disponível. Então as enfermeiras fizeram o melhor que podiam e realizaram o parto de uma menina saudável.

Quatro dias depois, no entanto, Judith (nome fictício) estava de volta, febril e com dores agudas no abdômen. Ela esta tendo problemas para amamentar e a bebê estava fraca e desidratada. A enfermeira diagnosticou sepse por infecção do trato genital, um dos principais fatores de mortalidade materna nos países em desenvolvimento. Por sorte, havia antibióticos disponíveis e Judith e sua bebê se recuperaram.

Vulneráveis ao desastre

A menção aos países nas ilhas do Pacífico lembra imagens de incríveis mares azuis, hibiscos cor-de-rosa em flor e palmeiras ondulantes. No entanto, a vida em um “paraíso tropical” tem seu preço.

p“As ilhas do Pacífico são extremamente vulneráveis já que muitas delas são atóis, ou seja, basicamente recifes circulares de coral, muito pequenos e a apenas um metro acima do nível do mar”, explica Najib Assifi, Diretor e Representante do Escritório Sub-regional do UNFPA para o Pacífico. “As pessoas vivem nesses minúsculos atóis e estão sujeitas a simples ondas de maré, que são suficientes para acabar com suas casas e comunidades”.

Tufões, terremotos e vulcões também são perigos comuns, que, ao longo do ano, ameaçam milhares de pequenas ilhas, a maioria de origem vulcânica ou de coral. Quando uma crise atinge o Pacífico, o acesso limitado a serviços de saúde pode ser uma das principais causas da mortalidade materna. A elevação do nível do mar associada à mudança climática estão piorando a situação.

“No Pacífico, nosso foco é assegurar que as mulheres tenham acesso a cuidados obstétricos de emergência. A razão para isso é que as populações estão espalhadas em uma grande área de oceano, com grandes distâncias entre países e ilhas dentro de países. Leva muito tempo para viajar de barco e há poucos serviços aéreos, de forma que o acesso a instalações de saúde é limitado”, afirma o Sr. Assifi.

O conflito entre habitantes do Pacífico coloca outro desafio. Em 2006, os habitantes de Fiji vivenciaram o quarto golpe em vinte anos, e Papua Nova Guiné está imersa em continua tensão tribal. Em 2003, uma força de paz foi enviada à região para restaurar a segurança nas Ilhas Salomão. Em todas essas ilhas, lidar com a violência doméstica e sexual, gravidez na adolescência e estupro é parte das prioridades na proteção da saúde reprodutiva.


aO tsunami realmente nos pegou despreparados. Antes, nunca havíamos lidado com ou mesmo considerado a saúde sexual e reprodutiva como parte de nossa resposta de emergência.b
--—Veldah Rosie Ane Hiru

Necessidade de resposta coordenada
Com a ameaça de desastres naturais e conflitos pairando sobre o Pacífico continuamente, as agências da ONU, ONGs e outras instituições estão trabalhando duro para garantir que as mulheres tenham acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva que podem salvar vidas -- inclusive o tratamento médico para violência sexual --em contextos de crise e pós-crise.

Ainda assim, a entrega de equipamento médico e suprimentos tem sido um desafio devido a restrições de transporte e problemas de coordenação.

“A recente crise do tsunami nas Ilhas Salomão foi um alerta para todos”, diz o Sr. Assifi.

“O tsunami atingiu duramente a área, casas e escolas foram destruídas e houve uma perda substancial de vidas. Tentamos responder o mais rápido possível e enviar kits de saúde reprodutiva de emergência do armazém regional do UNFPA em Suva. Os kits chegaram às Ilhas Salomão na primeira semana do desastre, mas os mecanismos de resposta estavam desorganizados, assim, houve um pequeno atraso na disponibilização dos insumos para as populações afetadas”.

Depois de uma solicitação de cinco países no norte do Pacífico para garantir uma presença conjunta das Nações Unidas em seus territórios, uma nova iniciativa, a “Presença Conjunta de País” (do inglês Joint Country Presence), foi estabelecida. A Presença Conjunta permitirá que o UNFPA , o PNUD ou o UNICEF atuem em nome das três agências em um determinado país do Pacífico. Antes disso, o Escritório Sub-regional do UNFPA para o Pacífico operava a partir de Fiji e apoiava programas em 14 países da região. A iniciativa permitirá ao Fundo manter a presença em nove outros países, seja com seus próprios funcionários ou por meio do PNUD ou do UNICEF.

“Harmonizamos totalmente nossos programas com o PNUD e o UNICEF para evitar a duplicação da resposta. Também estamos consultando atores chave de toda a região para criar um conhecimento e uma compreensão mais fortes sobre o que é necessário para estar preparados para emergências. Mas tudo isso são apenas passos que estamos dando e ainda há muito trabalho a nossa frente”, afirma o Sr. Assifi.

Construindo redes locais

Em última instância, a prontidão para lidar com desastres e o fortalecimento da saúde reprodutiva requerem redes e organizações locais mais fortes. Um exemplo é o curso de treinamento em cuidados de saúde reprodutiva que está sendo oferecido pela Escola de Medicina de Fiji, amplamente financiado pelo UNFPA, para 20 praticantes da área médica de dez países insulares do Pacífico a cada ano. Em sua maioria, os participantes do curso são profissionais de saúde experientes, mas a capacitação os ajudará a gerenciar melhor questões de saúde reprodutiva, incluindo o parto.

“Em áreas rurais do Pacífico há principalmente postos de enfermagem estabelecidos para lidar com questões de saúde reprodutiva. Assim muitos dos participantes são enfermeiros e enfermeiras, seja com registro ou ‘práticos’. Essas pessoas têm que atuar como verdadeiros ‘faz-tudo’ e saber desde operações básicas até prescrição de medicamentos”, afirma Julian Sing, Gerente de Planejamento Corporativo da Escola de Medicina de Fiji.

A escola está trabalhando em maneiras de manter os participantes em contato depois do final do curso, mas não é fácil.

“Cerca de 40% dos participantes vieram de vilas que não têm acesso a internet e nunca enviaram um e-mail antes de ter participado do curso”, diz o Sr. Sing. “Então, temos que mandar um informativo por correio e, honestamente, não estou seguro sequer de que eles receberão essas correspondências. Mas queremos continuar tentando estabelecer redes, de forma que, eventualmente, o Pacífico esteja preparado para atender adequadamente às necessidades de saúde reprodutiva de sua população”.

SPRINT: eliminando lacunas
“O tsunami realmente nos pegou despreparados”, diz Veldah Rosie Ane Hiru, da Associação de Planejamento Familiar das Ilhas Salomão. “Antes, nunca havíamos lidado com ou mesmo considerado a saúde sexual e reprodutiva como parte de nossa resposta de emergência. Nosso foco, como na maioria dos outros países das ilhas do Pacífico, era abordar as necessidades de abrigo, roupas e alimentos”.

Para lidar com essa lacuna, o UNFPA, a Federação Internacional de Planejamento Familiar e outros parceiros desenvolveram o Programa de Saúde Sexual e Reprodutiva para Situações de Crise e Pós-Crise no Leste e Sudeste da Ásia e Pacífico (SPRINT, do inglês Sexual and Reproductive Health Programme in Crisis and Post-Crisis Situations in the East, Southeast Asia, and the Pacific). Como parte dessa iniciativa, 27 participantes de 10 países no Pacífico foram recentemente capacitados em Suva, Fiji, sobre como cuidar apropriadamente – e treinar outras pessoas nesse sentido – das muitas questões de saúde sexual e reprodutiva que podem ocorrer em uma emergência, incluindo a garantia de que medidas universais de segurança sejam aplicadas e a manutenção da confidencialidade dos serviços prestados, especialmente em casos de estupro.

“O Pacífico tem sido negligenciado há muito tempo no que se refere a emergências humanitárias, já que o principal foco está nos grandes desastres que acontecem na África ou na Ásia”, afirma a Dra. Wilma Doedens, Assessora Técnica do UNFPA para resposta humanitária em saúde sexual e reprodutiva e uma das capacitadoras do SPRINT. “Assim, é importante vir a essa região e garantir que elementos de saúde reprodutiva que salvam vidas -- como a prevenção do HIV, o gerenciamento de casos de violência sexual, a prevenção da morbidade e da mortalidade materna e pré-natal -- estejam integrados à resposta geral de emergência.

— De Fiji por Shannon Egan

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